27/02/2021 às 08h49min - Atualizada em 27/02/2021 às 08h49min

Profissionais da saúde relatam o que vivem na linha de frente contra a Covid-19 em SC: 'A gente sai do céu para o inferno muito rápido'

Taxa de ocupação de leitos adultos pelo SUS é de 94% e número internados é o maior desde o início da pandemia nas redes pública e privada. Médicos e enfermeiros descrevem misto de emoções

Com informações do G1

Desde os primeiros casos de Covid-19 confirmados em Santa Catarina, em de março de 2020, os profissionais da saúde vem trabalhando para garantir atendimento à população. O aprendizado para lidar com a doença veio com tempo, assim como com as mortes entre os que estavam na linha de frente. Em todo estado, foram 7,1 mil pessoas que morreram por causa do corornavírus.

Mesmo após 11 meses trabalhando na linha de frente, a coordenadora de Unidade de terapia intensiva (UTI), Débora Gonçalves Ferreira, diz que ainda tem medo de levar o vírus para casa e contaminar a família. Segundo ela, são altos e baixos diários durante os atendimentos de pessoas contaminadas

"Momentos difíceis, de incerteza e medo. Nossa equipe está toda aqui, lutando contra esse vírus. Todos ajudando de alguma forma. Os sentimentos variam em questão de segundos, a gente sai do céu para o inferno muito rápido. São sentimentos de raiva, alegria, esperança, empatia", disse.

Perdas e cansaço tem feito parte do dia a dia dos profissionais. Mas a falta de leitos de UTI, em razão da demanda crescente dos últimos dias tem colocado ainda mais pressão e incerteza durante o trabalho. Apesar do "plantão sem fim", a esperança pelo fim da pandemia, além do trabalho constante continuam.

"A gente precisa de ajuda. O vírus está ganhando e a gente está no pior momento da pandemia", afirma o chefe de UTI, Vinícius Heurich.

Santa Catarina registrou 657.649 casos confirmados de Covid-19 desde o início da pandemia. O secretário da Saúde de Santa Catarina, André Motta, admitiu que o estado está enfrentando um colapso na saúde.

Na noite de quinta-feira (25), o governo estadual anunciou que vai fechar serviços não essenciais aos fins de semana.

A médica infectologista, Carolina Ponzi, esteve na linha de frente do atendimento a pacientes com Covid-19 em todos os meses. Ela perdeu a mãe, em razão da doença, em agosto do ano passado no mesmo hospital que trabalha. Por conhecer ainda mais de perto a dor de quem fica, ela segue trabalhando para poder salvar outras vidas.

"Eu cheguei agora na unidade e estão entubando o terceiro [paciente] no turno da noite. Esse paciente estava razoavelmente bem mas [a condição dele] deteriorou rápido. Isso é enfermaria Covid", descreveu ela.

Já o médico de família Raí Costa e Silva alerta para o cansaço das equipes que enfrentam grandes desafios durante os turnos de trabalho.

"As equipes tão sobrecarregadas, essa é a situação que eu queria passar para vocês. Todo mundo por aí achando que estamos brincando. A gente chega de manhã no trabalho, já sabe que tem poucas vagas na UTI".

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Esperança

Mesmo dentro do turbilhão de emoções, pressões e angústias. Os profissionais conseguem ter momentos em que a esperança cresce e contagia, mais que o vírus.

" Quando a gente vê um paciente se recuperando, a gente fica emocionado. Quando a fisioterapia caminha com o paciente no corredor, começa a dar os primeiros passos, a gente vê que fez um bom trabalho", disse Débora.

Michele D' Agostini é enfermeira e atua em um centro de triagem. Há um ano, não vê pessoalmente a mãe, de 86 anos, pois tem medo de infectá-la. Todos os dias ela tem feito o mesmo pedido para quem conhece: "Fique em casa e cuidem dos seus entes queridos".

"Está sendo cansativo, está sendo desgastante, mas ao mesmo tempo é gratificante em ver quantas vidas a gente salva, em cuidar dos pacientes e cuidar até dos acompanhantes", afirma.

A médica, Débora Gonçalves Ferreira, não pensa em desistir. Como ela, vários profissionais atuam e se arriscam para continuar salvando vidas em Santa Catarina.

"A gente não vai desistir, que é todo dia uma batalha e a guerra ainda está no caminho, uns dias com perdas, outros não. E sozinha eu não consigo fazer isso. Tenho uma equipe maravilhosa, eu não sou apenas um rosto, eu tenho todos esses [aponta para os colegas] e eles representam esse hospital. Vamos vencer essa guerra", concluiu.


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