A incompetência estratégica desequilibra as relações familiares. Ela ocorre quando um cônjuge ou convivente se recusa a executar tarefas do lar ou de cuidado, sob o pretexto de não saber ou não conseguir fazê-las adequadamente.
Imagine João e Maria que vivem em união estável, ambos laboram 8h diárias. Ao chegar em casa, João deita no sofá, enquanto Maria inicia a “segunda jornada”: limpar, organizar as tarefas escolares, dar banho nos filhos, preparar a janta e lavar roupas. Ao pedir que João arrume a mesa, ela recebe respostas sucessivas como: “Onde está a toalha?”, “Onde estão os pratos?”, “Logo eu arrumo”.
Ao perceber que delegar dá mais trabalho do que fazer, Maria retoma sozinha a tarefa. Essa dinâmica, que não é rara, cristaliza um padrão de desigualdade: enquanto o homem encontra no lar um espaço de descanso, a mulher enfrenta jornadas duplas ou triplas de trabalho.
O IBGE (2024) confirma: mulheres dedicam, em média, 21,6 horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidados não remunerado, quase o dobro dos homens (11 horas).
Quando ocorre a separação geralmente o genitor alega incapacidade financeira como justificativa para reduzir o valor da pensão alimentícia, transferindo para a mãe o ônus de se dobrar no serviço extra para dar conta de todas as necessidades dos filhos.
A tática de manipulação também se verifica quando o pai afirma não ter habilidade para cuidar dos filhos, deixando para a genitora a compra de vestuário, a ministração dos medicamentos, a compra de fraudas, mamadeiras, e participação nas reuniões escolares.
A Lei nº 15.069/2024, que institui a Política Nacional de Cuidados, determina a corresponsabilidade entre homens e mulheres e busca promover uma mudança cultural sobre a divisão sexual do trabalho, reconhecendo, reduzindo e redistribuindo o trabalho não remunerado, historicamente realizado de forma predominante por mulheres.
A divisão desigual do trabalho de cuidado está enraizada em padrões culturais discriminatórios e compromete a igualdade substantiva entre homens e mulheres, devendo ser combatida por políticas públicas e interpretações jurídicas que promovam a corresponsabilidade.
Sendo assim, é dever de todos coibir a incompetência estratégica. Sendo uma medida de justiça e equidade de gênero, promoção de direitos humanos, proteção à infância e à adolescência, além de uma forma de fortalecimento da própria função social da família.
Por: Juliane Silvestri Beltrame Especialista em Direito das Famílias e escritora.