Por décadas, houve um lugar onde Palma Sola e a região se encontrava, onde a juventude dançava, casais se formavam, amizades se consolidavam e histórias começavam. A Black Som não foi apenas uma danceteria, foi um capítulo inteiro da memória afetiva de uma cidade.
Fundada pelos irmãos Peliser, Cleunir, Jair, Zelci e Ivanete, a Black Som nasceu de uma necessidade, cresceu com ousadia e se transformou em símbolo regional. Hoje, com o encerramento de suas atividades e a venda do espaço, fica o vazio físico, mas permanece uma história impossível de apagar.
Tudo começou no dia 22 de abril de 1978, ainda de forma improvisada, em uma sala anexa ao antigo Esporte Clube Fronteira, a estrutura era simples, quase artesanal. O som vinha de um toca-discos em formato de maleta que naquela primeira noite, não resistiu por muito tempo: “Depois de uma hora, simplesmente queimou”, relembra Cleunir.
A solução veio do improviso, no salão ao lado, acontecia um casamento. De lá, veio o som emprestado que garantiu a continuidade da festa até o amanhecer. Um sinal do que viria a ser a essência da Black Som criatividade, persistência e paixão.
Antes da música, havia a luta pela sobrevivência. A família Peliser vivia de trabalhos pesados, entre a lavoura e a construção civil. Foi ao adquirir os balcões, bebidas e o pouco que havia no porão do antigo clube Existência, que surgiu a oportunidade de mudar de vida. Dali nasceu a ideia de criar uma danceteria.
Cleunir, com 19 anos, foi o grande idealizador. Comprou os equipamentos, montou as caixas de som com as próprias mãos e começou a dar forma ao que se tornaria a Black Som. O nome veio de um detalhe curioso: uma garrafa de uísque Black Tie sobre uma prateleira. Ao perguntar o significado de “black”, encontrou a conexão perfeita com a luz negra usada na época. Assim surgiu o nome que marcaria gerações.
O ponto de encontro da região
O que começou pequeno rapidamente ganhou proporção. Ainda no fim dos anos 70 e início dos 80, a Black Som já era o principal ponto de encontro da cidade e logo, de toda a região. Pessoas de Campo Erê, Anchieta, São José do Cedro e Francisco Beltrão-PR frequentavam os bailes. Muitos se conheceram ali, começaram namoros e construíram famílias.
A Black Som contava com uma programação fixa: sábado à noite e domingo à tarde. Em pouco tempo, isso já não era suficiente: “A gente abria e o pessoal vinha. Se fechasse, dava briga”, conta Cleunir.
A Black Som passou a ditar o ritmo social da cidade. Bailes, concursos, desfiles, festas de 15 anos, casamentos, tudo passava por ali.
Em 1983, no embalo do crescimento, veio a inauguração da sede própria, construída praticamente às pressas para o carnaval daquele ano. Com estrutura maior, som potente e iluminação marcante, a casa se consolidou como uma das melhores da região. Eventos lotavam, agendas viviam cheias e o nome Black Som se tornava sinônimo de diversão.
Cleunir, além de professor durante o dia, era DJ à noite. Foram cerca de duas décadas comandando as pistas, embalando histórias que hoje se confundem com a própria memória da cidade. O sucesso não ficou restrito a Palma Sola. Com uma C10 azul carregada de equipamentos, a família levou o som para toda a região. Bailes em Salgado Filho-PR, Dionísio Cerqueira-SC, Anchieta, São José do Cedro e comunidades do interior faziam parte da rotina. Estradas precárias, viagens improvisadas e muita vontade marcaram essa fase. Era a Black Som se tornando ainda maior, uma marca que ultrapassava fronteiras.
Com o passar dos anos, a Black Som acompanhou as mudanças da sociedade. O auge dos bailes deu lugar a outros formatos de eventos. Vieram os ônibus, novas opções de lazer, outras casas. A danceteria foi, aos poucos, se transformando.
Casamentos, aniversários, formaturas e eventos sociais passaram a ocupar o espaço que antes era dominado pelas pistas de dança. Ainda assim, a essência permanecia: reunir pessoas. Foram mais de 100 casamentos realizados, além de incontáveis festas que marcaram vidas.
Entre polêmicas e histórias curiosas
Nem tudo foram flores. Em um episódio marcante, a danceteria chegou a ficar mais de 20 dias fechada, após intervenção policial motivada por boatos e incompreensões sobre o funcionamento da casa.
Na prática, nada de irregular foi comprovado. Com apoio de lideranças locais, como o então prefeito Claudino Crestani [em memória], a casa foi reaberta. O episódio hoje é lembrado quase com humor, um retrato de um tempo em que novidades causavam estranhamento.
Concursos que marcaram a época
Muito além dos bailes, a Black Som ficou conhecida pelos concursos que movimentavam Palma Sola e toda a região, criando expectativa e reunindo grandes públicos. Entre os mais lembrados estão as escolhas de Garota Black Som, Garota Escola e outros desfiles que valorizavam a participação da comunidade e revelavam talentos locais. Não eram eventos isolados, mas noites inteiras preparadas com cuidado, que transformavam a danceteria em um verdadeiro palco, com iluminação especial, música selecionada e torcida organizada.
Um dos mais comentados até hoje é o Garota Molhada, que acabou se tornando símbolo de uma época mais descontraída e irreverente. A proposta chamava atenção pela ousadia e pelo clima de diversão que tomava conta do ambiente. As participantes desfilavam e interagiam com o público, criando momentos que ficaram marcados na memória de quem viveu aquelas noites. Histórias, fotos e lembranças desse concurso ainda circulam entre os moradores, reforçando o quanto esses eventos foram impactantes.
Mais do que entretenimento, os concursos promovidos pela Black Som tinham um papel social importante. Eles reuniam famílias, amigos e comunidades inteiras, que se organizavam para prestigiar, torcer e participar. Era comum que o assunto dominasse as conversas nos dias seguintes, fortalecendo vínculos e criando uma identidade coletiva em torno da danceteria. Esses eventos ajudaram a consolidar a Black Som como o grande ponto de encontro da região, um espaço onde não apenas se dançava, mas se vivia intensamente a cada momento.
A força silenciosa de quem sustentou a história
Se a Black Som foi grande, isso se deve às pessoas que estiveram nos bastidores. Entre elas, Zelci Peliser, que por muitos anos esteve à frente do dia a dia, especialmente na lanchonete e nos eventos. E ao seu lado, uma presença fundamental, Marlise Xavier.
Por mais de três décadas, Marlise foi mais do que funcionária, era parte da família. Zelci e Marlise se entendiam apenas pelo olhar, o que não era difícil já que Marlise trabalhou com a família por 32 anos. Mas muito além disso, Zelci e Marlise eram parceiras de vida.
Seu falecimento marcou profundamente a família e foi um dos momentos mais difíceis da trajetória da Black Som. “A maior perda que nós tivemos, até hoje, dá pra dizer que a família Peliser teve, porque considerávamos da família, foi ela [Marlise Xavier]”, declarou Cleunir.
O fim de um ciclo
Com o tempo, o peso da história, o cansaço natural e principalmente, a ausência de quem era essencial no dia a dia, tornaram difícil seguir. A decisão de encerrar as atividades e vender o espaço não foi simples, foi, acima de tudo, emocional. Cleunir resume que grande parte da vida dele e de seus irmãos foi vivida dentro daquele espaço.
Lugar esse que com o passar dos anos, ganhou um significado ainda mais íntimo. Além dos grandes eventos, o espaço se transformou em ponto de encontro entre amigos, especialmente nas noites de sexta-feira, quando o baralho, a conversa e uma janta compartilhada reuniam aqueles que já se consideravam família. Era um ritual simples, mas carregado de afeto.
Com o encerramento das atividades, fica essa ausência. Por isso, Cleunir já projeta, em sua própria casa, a construção de um novo espaço para manter viva essa tradição, um lugar onde o grupo possa voltar a se reunir, revivendo, à sua maneira, o espírito de convivência que a Black Som sempre representou.
A Black Som funcionou por 47 anos, sua história iniciou dia 22 de abril de 1978 e encerrou no dia 12 de dezembro de 2025. O imóvel agora pertence ao Jornal Sentinela do Oeste, que planeja construir sua sede no local. Mesmo assim, permanece o respeito e o carinho pelo espaço que marcou tantas vidas.
A Black Som não existe mais como antes. As luzes se apagaram, o som silenciou e as portas se fecharam. Mas para quem viveu, ela nunca deixou de existir. Está nas histórias contadas, nas músicas que ainda ecoam na memória, nas fotos guardadas, nos encontros que começaram ali. Está no sentimento coletivo de uma época em que tudo parecia acontecer naquele endereço.
A Black Som foi, acima de tudo, um lugar onde a vida acontecia e isso, o tempo não apaga.