Nos últimos anos, a produção de feijão em Palma Sola e região passou por uma expansão expressiva, impulsionado por um conjunto de fatores econômicos e agronômicos. O zoneamento agrícola, a alta nos preços da cultura e as dificuldades enfrentadas pelo milho devido à incidência da cigarrinha levaram muitos produtores a apostarem no feijão como uma alternativa rentável. No entanto, essa tendência pode estar prestes a mudar, com o milho voltando a ganhar espaço nas lavouras já na próxima safra.
Mudança de rota na produção
De acordo com Fernando Boni, Engenheiro agrônomo na Coopertradição, a mudança no perfil produtivo começou na safra 2019/2020, quando os agricultores da região enfrentaram perdas significativas na produção de milho devido à alta incidência da cigarrinha. "O investimento necessário para controlar a praga se tornou elevado e os riscos aumentaram consideravelmente. Como alternativa, muitos produtores optaram por substituir o milho pelo feijão e pela soja", explica Boni.
Outro fator determinante foi a alteração no zoneamento agrícola de Santa Catarina, que impôs uma nova data-limite para o plantio da soja. Com a necessidade de aguardar até 2 de outubro para iniciar a semeadura da oleaginosa, o feijão surgiu como uma opção viável para ocupar a terra nesse intervalo. "Quem queria plantar soja mais cedo precisou rever seus planos, e o feijão passou a ser um complemento estratégico na safra", detalha Boni.
Com os preços do feijão atingindo patamares históricos, chegando a R$ 360 por saca em algumas safras, a cultura tornou-se ainda mais atraente para os produtores. O resultado foi um aumento expressivo da área cultivada. “Os cooperados que não tinham cultivado na primeira safra agora plantaram em uma determinada área. Alguns até dobraram a produção, resultando em um aumento significativo”. exemplifica Boni.
Desafios e desaquecimento do mercado
No entanto, o crescimento acelerado da produção fez com que a oferta de feijão aumentasse significativamente, gerando uma queda nos preços. Atualmente, o feijão preto, que chegou a ser vendido por R$ 360 a saca, está cotado a aproximadamente R$ 150, reduzindo a rentabilidade da cultura. "No ano passado, o Brasil exportou muito feijão para o México devido a problemas na safra deles. Este ano, com a recuperação da produção mexicana, nossa demanda externa caiu, pressionando ainda mais os preços", explica Boni.
A queda nos preços e os avanços no desenvolvimento de híbridos de milho mais resistentes à cigarrinha estão levando os produtores a reconsiderar a viabilidade do feijão. "Nos últimos anos, avançamos muito na pesquisa e agora temos milho mais tolerantes à praga. Isso está animando os agricultores a retomarem o plantio do cereal", comenta Boni.
Ciclo produtivo e riscos climáticos
O feijão apresenta um ciclo de produção relativamente curto, sendo plantado em setembro e colhido entre dezembro e janeiro. Essa característica permite um segundo plantio na mesma área, geralmente de soja. "Essa possibilidade de diversificação é um dos pontos positivos da cultura, pois reduz os riscos do produtor, permitindo uma distribuição mais equilibrada de perdas e ganhos ao longo do ano", destaca Boni.
No entanto, o plantio de feijão na safrinha, realizado após a colheita do milho ou da soja, traz desafios adicionais. As condições climáticas adversas, como frio intenso e excesso de umidade, podem impactar negativamente a produtividade e a qualidade do grão. "Se houver muita umidade e calor, os grãos podem brotar antes da colheita, prejudicando a comercialização", alerta Boni. O feijão preto é especialmente suscetível a esse problema, enquanto o feijão carioca tende a ser mais afetado devido à sua coloração.
Custos de produção e rentabilidade
O custo de produção do feijão é um fator determinante para a rentabilidade do produtor. Em 2024, contratos foram fechados ao valor de R$ 240,00 por saca, cobrindo todos os custos de produção entre 12 e 15 sacas por hectare. Esse modelo de negociação trouxe maior previsibilidade financeira e segurança ao produtor.
Perspectivas para o futuro
Embora o feijão tenha sido uma alternativa viável nos últimos anos, a tendência para a safra 2025/2026 é de retração na cultura, com um retorno gradual do milho. "A soja continua sendo a principal cultura da região, representando entre 75% e 80% da produção, mas o milho está retomando seu espaço. A decisão final dos produtores dependerá do comportamento do mercado e dos preços nos próximos meses", conclui Boni.
Com um setor agrícola dinâmico e dependente de múltiplas variáveis, os agricultores de Palma Sola e região seguem atentos às tendências do mercado e aos avanços tecnológicos para tomar decisões que garantam a sustentabilidade e a rentabilidade de suas lavouras.