O Moinho de Anchieta é símbolo de trabalho e união

Há cerca de 20 anos que o Moinho de Anchieta encerrou as atividades, porém deixou marcas profundas, inclusive sonoras, tornando-se símbolo de trabalho e união da família

Ruthe Kezia - Anchieta
11/12/2025 08h00 - Atualizado há 3 meses

O Moinho de Anchieta é símbolo de trabalho e união
Por volta de 1967, haviam apenas três caminhões em Anchieta e um deles era do Moinho. Na foto: Décio Hoffmann, Ernani Hoffmann e Ivo Feldkircher. (Foto: Divulgação/Arquivo Família Feldkircher)

Durante décadas, o som contínuo do cilindro moendo trigo e milho fez parte da rotina de Anchieta. Localizado próximo ao centro da comunidade, o antigo Moinho foi peça fundamental na economia local, ponto de encontro de agricultores e símbolo de uma época em que a produção artesanal movimentava a vida das famílias do interior. Hoje, mesmo desativado, ele permanece vivo na memória de quem trabalhou e de quem cresceu ao redor daquele movimento.

A história do Moinho começa no Rio Grande do Sul, ainda nos anos 1950, quando Afonso Hoffmann [sogro de Ivo Feldkircher], decidiu buscar novas oportunidades no Oeste catarinense. Na época, dois filhos de Afonso estavam no seminário de Frederico Westphalen, quando tomou conhecimento das terras disponíveis em Anchieta. Pouco tempo depois ele adquiriu três colônias e entre elas, um pequeno Moinho que descascava arroz e moía milho. Aos poucos, a família Hoffmann foi se mudando para Anchieta e dando início ao novo empreendimento familiar que marcou gerações.

Ele comprou o Moinho antes mesmo de vir morar. Uns dois ou três anos depois que eles se mudaram para Anchieta, nós [Ivo e Iracema Hoffmann Feldkircher], casamos e viemos junto para cá”, recorda Ivo, que chegou em Anchieta dia 28 de janeiro de 1965, recém-casado com Iracema. Ivo relembra que a estrada era estreita, precária e com difícil acesso, e a vida no local ainda era cercada por mato e isolamento. Porém havia trabalho, e muito.

Com o tempo, o sogro e os sete filhos homens organizaram o negócio como uma sociedade familiar. Foi quando decidiram investir no maquinário, instalando o cilindro para moer trigo, o que ampliou consideravelmente a produção. Ivo, que inicialmente cuidava do chiqueirão e auxiliava no transporte com o caminhão, mais tarde passou a atuar diretamente no Moinho, e permaneceu ali por cerca de 40 anos.

No início, o Moinho era movido com motor a diesel e fazia somente farinha de milho, numa máquina rústica, com cilindros de pedra que moíam o milho. Posteriormente, a família importou da Alemanha uma nova máquina para produzir farinha de trigo.

Ivo comenta que por volta de 1967, haviam apenas três caminhões em Anchieta e um deles era do Moinho. Com o crescimento do empreendimento, a rotina foi se tornando intensa, especialmente nos meses de safra: “Naquele tempo nós trabalhávamos em torno de 18h por dia. Começava às 4h e ia até quase amanhecer de novo. Mas era tudo automático, era só cuidar para não dar problema”, lembra Ivo.

O silo do Moinho comportava até seis mil sacos de trigo. A produção era distribuída para os agricultores de toda a região: Anchieta, Romelândia-SC, Palma Sola, Campo Erê e até municípios do Paraná. No auge, a moagem chegava a 80 sacos por dia, resultando em quase mil sacos por mês.

A filha mais nova de Ivo, Zoneide Feldkircher, cresceu dentro do Moinho e recorda a movimentação constante: “Ali sempre tinha gente. Os agricultores vinham, descarregavam, conversavam, tomavam chimarrão nos bancos. Era um ponto de encontro da comunidade”, conta.

Além disso, o maquinário era motivo de orgulho. Uma antiga registradora, guardada por muitos anos como relíquia, somava as encomendas e organizava a produção. O cilindro, com dois rolos de 200 quilos cada, exigia atenção constante: “Era tudo de ferro. Depois começaram as exigências da Vigilância Sanitária, tinha que ser inox, tudo mais moderno”, explica Ivo.

Com a redução das plantações de trigo, a modernização necessária e o avanço da idade dos proprietários, a família decidiu encerrar as atividades há cerca de 20 anos. O tio de Zoneide, Décio Paulo Hoffmann, que também era sócio, sofreu profundamente com o fechamento: “Para ele foi muito difícil, o Moinho era a vida deles. Todos os dias estavam lá, além de trabalhar reencontravam amigos. Quando parou, o meu tio entrou em depressão e há cerca de 20 anos depois, meu pai ainda sonha com o dia a dia do Moinho”, conta Zoneide.

Apesar do fim das atividades, o Moinho deixou marcas profundas, inclusive sonoras: “Uma amiga minha me dizia que ela ia dormir e acordava com aquele barulho do Moinho. Quando o Moinho fechou, ela disse que sentia uma falta daquele barulho, porque já tinha se acostumado”, comenta Zoneide.

Hoje, restam apenas lembranças, algumas peças guardadas e histórias que atravessam gerações. Mas o legado permanece: o Moinho que começou simples, descascando arroz e moendo milho, tornou-se símbolo de coragem, de trabalho duro e da força de uma família que ajudou a construir a história de Anchieta.

 

 

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